Não pelo valor. Pelo que ela faz com a cabeça de quem a carrega.
Ela não some quando você dorme. Ela não some quando você acorda com uma ideia boa. Ela não some quando você publica um texto, quando alguém comenta, quando o dia parece estar indo bem. Ela só fica lá. Presente. Pesada. Lembrando que você errou com pessoas que não mereciam.
Eu errei com pessoas que não mereciam.
Pessoas. Fornecedores. Parceiros. Bancos. Tudo contabilizado. Tudo numa planilha. Eu sei exatamente pra quem eu devo. E sei exatamente a ordem em que vou fechar cada item.
Não foi má fé. Foi uma bola de neve que eu fui empurrando porque sempre acreditei que o próximo mês ia resolver. E o próximo mês não resolveu. E eu fui ficando sem chão, sem energia, sem a capacidade de olhar nos olhos de quem eu devia e explicar o que estava acontecendo. Eu sou comunicador. E não comuniquei. Essa é a parte que mais me envergonha.
Tive uma empresa por quase dez anos. Ela foi divertida, caótica, cheia de gente talentosa e de momentos que eu guardo com carinho real. Meu filho admirava aquilo. O espírito, o coletivo, as coisas legais que saíam de lá.
Quando ela fechou, eu não fechei junto. Tive que contar pra família. Que não tinha mais empresa. E a família foi bem, disse tudo bem, vai lá. Mas sempre vinha a pergunta: por quê? Por causa de quê?
Nem tudo é preto e branco. E explicar o que está no meio pra quem te ama é a parte mais difícil.
Quando desmoronei, desmoronei de verdade. Daquele tipo que não tem vontade de tomar banho, de escovar o dente. A vontade era só ficar deitado sem conseguir entender por que nada fazia sentido. Não era preguiça. Era a ausência de qualquer motivo pra levantar.
Fui buscar acompanhamento profissional. Pra conseguir sair um pouco disso. E fui me reestruturando, ainda com muitas baixas, ainda com aquela falta de vontade voltando. Mas fui indo. Porque eu precisava pagar as contas. Porque eu precisava pagar.
Continuei atendendo. Poucos projetos. Mas teve um que me acendeu de novo.
Quando entrei nele, a memória de tudo que eu já tinha construído voltou de uma vez. Uma equipe inteira, pessoas talentosas, processos que funcionavam. E eu falei: essa é a minha chance. Esse cliente não sabia que não tinha ninguém atrás de mim.
O que eu fiz? Fui buscar o que eu já usava de forma pontual e transformei em método. Não pra fazer o meu trabalho por mim. Pra me ajudar a entregar mais do que entregaria com uma agência inteira. Com o meu controle. Com a minha visão.
Foi aí que tudo começou a mudar de verdade.

Esse cara está aqui. Devendo. Reconstruindo. Sem medo de começar de novo.
Tem mais coisas dentro de mim do que um CPF negativado.
E eu vou continuar escrevendo até que isso fique claro. Pra mim primeiro. E pra quem quiser acompanhar.
Esse nó ainda está aberto. Mas eu já sei onde ele vai fechar.