June 16, 2026
Não há como traduzir uma alma
Estive pensando muito sobre como as pessoas podem me perceber através de interações e acho que, por muito, tempo tentei controlar isso…
Outra Janella
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Estive pensando muito sobre como as pessoas podem me perceber através de interações e acho que, por muito, tempo tentei controlar isso. Parece natural querer que outros te vejam como você se vê, ou que possam ter um reflexo de suas qualidades e o que te faz se sentir orgulhoso de si mesmo. Mas quanto mais experienciei ser eu mesma ao redor das pessoas, mais os resultados pareciam abstratos e distintos do que eu esperava.
Conversando com uma amiga ontem sobre uma pessoa específica, notei o quanto eu queria que essa pessoa me visse de maneira verdadeira e que entendesse que a maneira que eu me expressava estava intrinsecamente ligada a mim mesma e não exatamente aos jogos que jogamos socialmente. E durante a conversa eu percebi que talvez esse desejo que eu possuía de ser vista e notada por inteiro por essa pessoa me mostrava que exige um nível assustador de vulnerabilidade para ser acessado por outro.
Deixar que o outro me veja, entenda minhas atitudes, palavras e meus sentimentos me pede também que eu abra meu mundo sem filtros para aquela pessoa, e isso pode ser extremamente ameaçador para a nossa sombra ou partes que não foram completamente integradas ao nosso ego.
E o quão difícil é abrir nosso mundo, que levamos tanto tempo para construir, organizar e proteger, e deixar alguém entrar, conhecer e não ficar, ou, pior, rejeitar e destruir? Então é mais fácil fingir, fingir que não se importa, que você não quer estar perto, não tem interesse em fazer parte. Fingir é como uma armadura de aço que protege a carne de ser.
Acredito que todos nós fingimos em algum momento (e não acho que há nada de errado com isso, até porque é uma das ferramentas da nossa psique). Mas às vezes fingimos quando queremos ser nós mesmos, por medo de ter nosso mundo tão íntimo abalado, incompreendido e invalidado pelas pessoas das quais desejamos justamente sermos vistos e acolhidos.
Digo com verdade que gosto de quem sou e entendo as decisões que tomo, por mais que às vezes quando as analiso, possam ter sido decisões imaturas ou impulsivas (e tudo que eu sabia até aquele determinado momento, afinal escolhas são baseadas no nosso conhecimento). Mas nada posso fazer em relação à natureza do meu ser, não posso nem quero mudar minha essência, pois é também onde me reconheço e me sinto alinhada.
E abrir mão desse desejo de ser compreendida por alguém que eu tanto quero que me veja por quem eu sou me ergue uma questão gigantesca: por que eu quero tanto assim que o outro me entenda, não é o bastante eu me entender?
Sou fruto das minhas escolhas e das escolhas de pessoas ao meu redor, fruto do alinhamento das estrelas e dos átomos, filha do acaso e do destino, existo porque as coisas aconteceram exatamente como deveriam acontecer para nesse momento eu poder ser. Eu não posso me tirar a dádiva de existir autenticamente por medo de ser observada como o universo, sobre o qual, mesmo com anos de estudos, sabemos tão pouco. Ninguém nunca saberá quem somos por completo além de nós mesmos, tudo que podemos oferecer são vislumbres, partes de nós em espaço-tempo específico que só existe para aquela experiência, como mistérios impossíveis de serem desvendados por inteiro, cada um na sua própria grandiosidade de ser mais do que pode ser dito ou expressado e com sua própria agonia de ser incompreendido.
Por fim, deixo um texto que fiz sobre esse sentimento alguns anos atrás e não tive coragem de compartilhar até agora:
(Original)
Nothing gets me
I try to explain myself
exhaustingly translating my soul, and still
no one and nothing gets it.
To be honest not even myself fully understand my heart and mind
I mostly try to organize my thoughts, they are quite messy
As an artist, i get frustrated when my mind imagine something that my fingers don't quite comprehend
It's difficult to admit that I am better at imagining.
I believe I was six
when my drawing that was painted in the walls of my elementary school
It wasn't the best translation of my imagination.
But I think I was older when I started not letting myself feel the taste of satisfaction.
The bittersweetness of thinking like an artist but prevent myself to be one.
Not allowing my soul to share a glimpse of what's inside of me
Like astral puzzles we are sharing pieces with strangers and hoping that they are getting the hole picture.
Expecting to not be misunderstood is a misunderstanding
no one really gets it, not like you do.
We are just like art.
Shaky lines
stumbling ideas that are not quite expectations
Changing shapes
even if I paint a portrait
of my own being
with my own beliefs
My paint brush still my perspective
Real
touchable
art,
Forget it,
There is no way to translate a soul.
(Tradução)
Nada me entende.
Tento me explicar,
traduzindo exaustivamente minha alma, e ainda assim
ninguém e nada entende.
Para ser honesta, nem eu mesma compreendo totalmente meu coração e minha mente.
Na maior parte do tempo, tento organizar meus pensamentos; eles são bem bagunçados.
Como artista, fico frustrada quando minha mente imagina algo que meus dedos não compreendem por completo.
É difícil admitir que sou melhor em imaginar.
Acredito que tinha seis anos
quando meu desenho, que foi pintado nas paredes da minha escola primária,
não era a melhor tradução da minha imaginação.
Mas acho que era mais velha quando comecei a não me deixar sentir o gosto da satisfação.
O agridoce de pensar como um artista, mas me impedir de ser uma.
Não permitindo que minha alma compartilhe um vislumbre do que há dentro de mim.
Como quebra-cabeças astrais, estamos compartilhando peças com estranhos e esperando que eles vejam o quadro completo.
Esperar não ser mal interpretado é um mal-entendido;
ninguém realmente entende, não como você entende.
Somos exatamente como a arte.
Linhas trêmulas,
ideias cambaleantes que não são exatamente expectativas,
formas mutáveis.
Mesmo que eu pinte um retrato
do meu próprio ser,
com minhas próprias crenças,
meu pincel ainda é a minha perspectiva.
Real,
tocável,
arte.
Esqueça,
não há como traduzir uma alma.
E mesmo que não haja como traduzir uma alma, vale a pena tentar.
Rafaella Aguiaro