September 4, 2026
Seu bug está correto. Então por que ninguém faz nada?
Você encontrou o bug.

By Lílian Borba
4 min read
Reproduziu.
Documentou os passos.
Colocou evidências.
Anexou prints.
Marcou como alta severidade.
E ele continua parado no backlog.
Uma sprint.
Duas.
Três.
Enquanto isso, outras demandas passam na sua frente.
Se isso já aconteceu com você, talvez o problema não esteja no bug.
Pode estar na forma como você comunicou o risco.
O erro que muitos QAs cometem
Existe uma diferença enorme entre:
"O sistema apresenta erro 500 no checkout."
e:
"Clientes não conseguem finalizar o pagamento, o que pode interromper a conversão de pedidos."
Tecnicamente, as duas frases podem estar descrevendo exatamente o mesmo problema.
Mas elas não provocam a mesma decisão.
A primeira descreve o que o sistema fez.
A segunda explica por que alguém deveria se importar.
E essa diferença muda completamente a conversa.
QA costuma reportar o problema na ordem errada
Um bug report tradicional geralmente começa assim:
- Acesse o sistema.
- Faça login.
- Acesse determinada tela.
- Clique em determinado botão.
- Observe o erro.
Tudo isso é importante.
Mas existe uma pergunta que deveria aparecer antes:
"O que acontece se esse problema não for corrigido?"
Essa é a pergunta de quem está decidindo prioridade.
Um bug report que gera ação precisa conectar quatro coisas:
Impacto → Evidência → Risco → Ação sugerida.
Não significa abandonar a parte técnica.
Significa colocar a parte técnica no lugar certo.
O "e daí?" é uma das perguntas mais importantes do QA
Imagine este reporte:
"O botão de finalizar pedido não responde quando o carrinho está vazio."
É um fato.
Agora complete:
"O botão de finalizar pedido não responde quando o carrinho está vazio — o usuário fica preso na tela sem entender o que aconteceu."
Agora existe consequência.
E podemos ir além:
"Não sabemos ainda quantos abandonos podem estar relacionados a esse comportamento, mas é uma hipótese testável."
Perceba algo importante.
Você não precisou exagerar o impacto.
Não disse que aquilo está causando milhões em prejuízo.
Não inventou números.
Você transformou um comportamento técnico em uma questão que pode ser investigada.
Essa honestidade também faz parte da comunicação de risco.
Severidade não é suficiente
"Alta severidade."
"Crítico."
"Bloqueador."
Essas classificações podem fazer sentido para o time técnico.
Mas, para quem precisa decidir prioridade, elas podem ser insuficientes.
Compare:
"Erro 500 no checkout."
com:
"Cliente não consegue pagar — risco de perda direta de receita."
Ou:
"Race condition no cadastro."
com:
"Cliente pode ser cobrado duas vezes — risco de reclamação e chargeback."
A tradução é o que conecta a falha técnica à consequência.
E isso é uma habilidade de QA.
E quando pedem para cortar testes?
Aqui aparece outra diferença entre um QA operacional e um QA que influencia.
Você pode responder:
"Não dá para cortar."
Ou pode responder:
"Dá para reduzir o escopo. Vou manter os três fluxos de maior impacto financeiro e os demais ficarão sem cobertura nesta sprint."
Percebe a mudança?
Você não virou a pessoa que trava a entrega.
Você transformou a discussão em trade-off.
A decisão deixa de ser:
"QA está impedindo a entrega?"
e passa a ser:
"Qual risco estamos conscientemente aceitando?"
Esse é um nível completamente diferente de conversa.
Qualidade também precisa ser comunicada para quem decide
Outro erro comum é mostrar para a liderança exatamente o mesmo dashboard utilizado pelo time técnico.
O time pode precisar acompanhar:
- cobertura;
- tempo de execução;
- flakiness;
- detalhes por módulo;
- causas raiz.
Mas a liderança normalmente precisa de outra perspectiva:
- risco em aberto;
- tendência;
- impacto;
- decisão necessária.
Não é esconder informação.
É adaptar a informação para a decisão que aquela pessoa precisa tomar.
E isso muda a carreira do QA
Porque existe um momento na carreira em que encontrar bugs deixa de ser suficiente.
Você precisa conseguir explicar:
"Por que esse bug importa?"
"Qual risco estamos aceitando?"
"O que acontece se não corrigirmos?"
"Qual é o trade-off?"
"Que decisão precisa ser tomada agora?"
É aí que QA deixa de ser apenas alguém que encontra problemas e passa a atuar como alguém que ajuda a organização a tomar decisões melhores sobre qualidade e risco.
O teste que você pode fazer amanhã
Pegue os últimos cinco bugs que você reportou.
Leia apenas o título e as duas primeiras linhas.
Agora pergunte:
"Alguém que nunca abriu esse sistema entenderia por que isso importa?"
Se a resposta for não, reescreva.
Não comece pelos passos técnicos.
Comece pelo impacto.
Depois coloque a evidência.
Depois o risco.
E termine com uma ação sugerida.
Você provavelmente vai perceber algo interessante:
alguns dos seus bugs não estavam sendo ignorados porque eram pouco importantes.
Eles estavam sendo ignorados porque a importância não estava explícita.
QA que encontra bugs é necessário.
QA que consegue comunicar risco muda decisões.
E essa é uma das transições mais importantes entre executar testes e atuar em nível sênior.
Porque qualidade não é apenas encontrar o problema.
É fazer com que a organização entenda o problema a tempo de fazer alguma coisa a respeito.
Para continuar
Foi justamente essa questão que me levou a criar "QA que Influencia": um material focado não apenas em encontrar problemas, mas em comunicar risco, negociar escopo, conversar com stakeholders, agir durante incidentes e transformar qualidade em uma conversa de decisão.
O livro está estruturado em quatro blocos: comunicação de risco, stakeholders não-técnicos, comunicação em crise/incidentes e influência ética no dia a dia.
Porque existe uma diferença enorme entre:
"Eu encontrei um bug."
e
"Eu consegui fazer o time entender o risco e agir."
Essa diferença também é senioridade.
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