Detalhe menor, de Adania Shibli, destaca-se, dentre muitos outros fatores, por sua dimensão política. Mesmo que a obra não assuma viés panfletário, sendo, pelo contrário, mobilizada pelo mero exercício da ficção em tempos selvagens, ainda é capaz de denunciar a violência perpetrada pela invasão israelense às terras palestinas ao longo de décadas de guerra ininterrupta. Dividida em duas partes, a narrativa de Shibli se separa temporalmente: na primeira, nos enveredamos por entre as dunas volumosas do deserto do Neguev, em meados de 1949, junto ao exército israelense; na segunda, estamos no meio do Estado fragmentado da Palestina, percorrendo e atravessando seus limites estreitos junto a uma mulher nativa do país, que investiga um caso de violência ocorrido há 25 anos. Ambas histórias se conectam por terem como núcleo o estupro e o assassinato de uma garota beduína um ano após a al-Nakba — "a catástrofe" para palestinos e árabes, que marca a criação do Estado de Israel. As minúcias exploradas em cada um dos cenários demonstram não apenas a destreza narrativa da autora, como também revelam um pleno conhecimento daquela terra, resultado de seu crescimento em meio aos caminhos tortuosos moldados pela guerra.

A memória, o relato e a guerra

Adania Shibli nasceu na Palestina de 1974, quando seu território já havia sido tomado quase que completamente pela expansão do pseudo-Estado israelense. Em entrevista à Louisianna Channel, Shibli relata a violência perpetrada pelos judeus aos árabes ainda hoje e a dificuldade de narrar os eventos testemunhados em meio à guerra, estruturando-os com começo, meio e fim, de maneira integrada. Por isso, em Detalhe menor, Shibli propõe uma narrativa cuja mobilidade evidencia a transgressão entre a forma clássica e a moderna, em um deslocamento que, segundo a autora, "as palavras movem-se de uma narrativa 'limpa'" para uma forma fragmentada, revelando "qual vida podem ter em uma narrativa 'quebrada'".

Sua atenção às minúcias da narrativa, isto é, aos detalhes usualmente secundários, são consequência de uma de suas experiências como tradutora interlinguística: enquanto mediava o diálogo entre uma mulher — vítima de um bombardeio israelense — e um jornalista, aquela insistia para que Shibli comunicasse ao repórter o fato de que sua identidade havia sido queimada no incêndio. Shibli, no entanto, hesitava, considerando a gravidade do contexto (isto é, os setenta mortos, os prédios destruídos etc.) e temendo as repercurssões negativas que uma preocupação tão reles poderia ter em nível midiático. Mas a mulher insistia reiteradamente. Isso fez com que Shibli percebesse a escala de importância das informações, "quais detalhes precisam ser traduzidos e quais precisam ser abandonados", porque a História não reserva espaços para informações irrelevantes. O único lugar em que há espaço para os detalhes menores é a literatura, porque ela nos guia "além dos limites da realidade". Talvez seja essa a empreitada bem-sucedida de Detalhe menor, que, com suas descrições ordenadas, focaliza os detalhes menores legados à periferia da guerra em brasa.

Caminhos convergentes

Como mencionado, a obra de Shibli divide-se em duas partes. A primeira se inicia com a miragem ardente do Neguev, com suas dunas austeras sobrepondo-se como ondas ao longe e cercando o acampamento militar recém erguido ao sudoeste do deserto. Correm-se, na narrativa, alguns poucos dias de agosto do ano de 1949, nos quais o exército israelense realizou diariamente rotas locais, com o intuito de proteger a terra de possíveis invasões egípcias e extirpá-la de remanescentes árabes. Despovoado, as ruínas sobre o deserto seguem sob a vigilância do oficial do destacamento, cuja rotina nos é transposta por meio de uma linguagem objetiva. A progressão de informações reveladas na primeira metade do romance segue uma cadência monótona, sendo expostas por um narrador em terceira pessoa que assume a posição de um observador alheio, capaz apenas de detalhar, à medida que acontecem, os fatos.

Antes de sair, ele passou em uma das cabanas, naquela em que se decidira alojar, e começou a levar seus pertences, que estavam amontoados perto da entrada, para um dos cantos do recinto. Depois, pegou um galão de metal, que estava no meio de suas coisas, e dele verteu um pouco de água em uma pequena bacia do mesmo material. Puxou uma toalha de uma bolsa de tecido, no formato de um saco, umedeceu-a com a água da bacia e limpou o suor do rosto. Lavou-a, tirou a camisa e passou a toalha nas axilas. Voltou a vestir a camisa e, depois de abotoá-la, lavou bem a toalha e a pendurou em um dos pregos fixados na parede. Carregou a bacia para a cabana e despejou a água suja na areia. Entrou de novo, depositou a bacia ao lado de seus outros pertences, no canto, e saiu.

Essa sistematicidade perdura pelo primeiro eixo da narrativa, conforme acompanhamos as rondas dos soldados, a progressão de uma inflamação na coxa do oficial — causada pela mordida de um animal desconhecido — e a captura de uma garota beduína, enrolada "dentro de suas roupas pretas como um besouro", após o assassinato de alguns árabes encontrados em uma fonte. Seguimos com uma meticulosidade nos detalhes, atentos à superfície dos fatos, até mesmo nos momentos de exaustão e de dor do oficial. Isso permanece mesmo no momento final, em que a garota é estuprada e assassinada pelos soldados a mando de seu chefe. Antes do crime brutal, coroado com sete tiros, em uma das poucas falas diretas no romance, o oficial reitera como é preciso transformar

o deserto de Neguev em uma área próspera e civilizada, em um centro de aprendizagem, de desenvolvimento e de cultura, como estamos fazendo no norte e no centro do país […] Não é o canhão que vence, mas o ser humano.

O quão irônico é, afinal, a imagem batida de um homem empunhando seu canhão em nome da civilidade?

De qualquer forma, essa supressão do envolvimento do narrador com as cenas, delegando-o a função de documentar metodicamente a realidade conforme ela se desdobra, nos permite pensar o que são de fato os detalhes menores: seriam aqueles superficiais, secundários à verdadeira narrativa e que, caso a sobreponham, borram seu sentido?; ou seriam a consequência de um certo ponto de vista, que, a depender do que é considerado relevante, lança à periferia as informações dispensáveis, concedendo às histórias particulares o caráter de secundárias? A história subjetiva da jovem vítima, cuja voz é inaudível, talvez seja o que possamos chamar de detalhe menor no decorrer desta história.

Em oposição a isso, a segunda parte da narrativa faz o movimento inverso: ao tomar ciência, lendo um artigo décadas mais tarde, do crime hediondo cometido entre os escombros do Neguev, a protagonista busca reaver a história da garota beduína, compartilhada superficialmente pelo jornalista que a tornou pública. Desta vez, guiados por uma narradora em primeira pessoa, acompanhamos uma mulher palestina por entre os enclaves de seu país usurpado, que visa retomar a voz da garota vitimizada por meio de uma leitura adequada dos documentos oficiais israelenses. Um detalhe menor (ou "secundário", nas palavras da narradora) talvez seja aquele que as conecta: em exatos 25 anos depois do assassinato, a narradora do segundo eixo do romance nasceu. Esta data, inclusive, converge com o aniversário da autora, revelando um certo alinhamento entre as duas, favorecido pelo método narrativo, o que pode sugerir algum conteúdo autoficcional.

Adiante, ávida pela conquista da verdadeira história, passível de ser acessada somente por meio da voz da garota, a protagonista parte em direção às instituições israelenses detentoras dos documentos referentes ao crime, e nos leva, com ela, pelas estradas intrincadas da Palestina subjugada pelos judeus, portando o documento de uma colega de trabalho — permitida a transitar entre as áreas delimitadas pelo Estado — e com o auxílio de dois mapas que se contrastam: o primeiro, da Palestina histórica; o segundo, da geografia colonial israelense. As áreas percorridas anos antes já não são mais as mesmas: "Não é mais possível distinguir nada disso. E quanto mais eu avanço, menos sei onde estou". Ela segue seu itinerário previsto, embrenhando-se nos mapas, e chega aos arquivos protegidos pelo exército, acabando por alcançar Nirím, local próximo ao incidente, à Faixa de Gaza e à Rafah. Quando chega ao sul do Neguev, após dar carona a uma senhora desconhecida e tentar segui-la deserto adentro, acaba transpondo uma área militar. Então, ao se deparar com os fuzis do exército israelense erguidos em sua direção, tenta manter a calma, mas, em um movimento brusco em busca de chicletes no bolso, é executada.

Tendo uma narradora em primeira pessoa, em oposição à primeira parte da narrativa, acessamos o ambiente por meio de detalhes selecionados. A descrição, ainda que menos metódica, segue de maneira progressiva, desdobrando os fatos sequencialmente, e a realidade é focalizada de outra forma, com o intuito de atender às demandas da pessoa que a vê. As características distintivas dessa parte são aquelas que se espera de um narrador cuja voz conta a própria história: interjeições, perguntas a si mesmo, hipóteses formuladas no silêncio e, é claro, a descrição somente daquilo a que ele tem acesso. Aliás, são essas propriedades que finalizam a narrativa, à luz e ao som dos mesmos tiros que encerram a primeira parte.

Tenho que me acalmar. Tenho certeza de que estou exagerando. Sim, como de costume. O chiclete. Onde está? Tenho que me acalmar. Estendo a mão para o bolso para pegar a caixa de chiclete. De repente, sinto algo semelhante a um fogo, uma ardência na mão e depois no peito, seguido pelo som de tiros ao longe.

Mas não apenas a morte da garota beduína e da mulher palestina se demonstraram equivalentes, como também algumas de suas marcas características. Um exemplo é o cheiro de gasolina impregnado nas mãos da narradora e que emanava do cabelo da garota. Outras figuras conectam as duas partes, como o cão que, sempre à espreita da beduína, se insinua à narradora hora ou outra. Ou as aranhas que ocupam os vincos da cabana do oficial e que, para a palestina, tem em suas teias o símbolo de uma barreira de medo intransponível. Tais figuras são sutis, mas contribuem com a associação dos dois eixos narrativos para além do núcleo que os mobiliza.

Detalhe menor é um romance denso e perturbador. O relato desses dois episódios em meio à catástrofe palestina se dá de maneira dura por meio de um mecanismo narrativo despido de excessos, que progride com suas imagens ao ritmo do desenrolar dos fatos. Lançando mão de uma sintaxe enxuta, restrita às necessidades do plano narrativo superior, Shibli, na primeira parte do romance, demonstra o quão pragmática foi a violência do exército judeu ao mesmo tempo em que se coloca em uma posição alheia, incapaz de acessar de maneira direta e transformar os acontecidos. Isso nos leva a uma narrativa que simula uma sequência de imagens cinematográficas se projetando, uma depois da outra, sobre uma tela em branco. Por outro lado, na segunda parte do romance, uma subjetividade vem à tona, erigindo imagens que só são destacadas porque a protagonista-narradora direciona seu foco a elas, e nos coloca diante da experiência palestina em primeira mão.

Com essa forma movediça de narrar a história, em duas partes apartadas, mas que se complementam, Shibli nos revela que as verdades só podem ser acessadas por meio dos detalhes menores, aqueles que são preteridos pela história, mas que ganham proeminência na literatura. Porque a história de derrota e conquista de Israel não pode se sobrepor à história da Palestina: ela jaz no povo que resistiu e ainda resiste à guerra que lhes foi outorgada, encontrando diferentes maneiras de perseverar e persistir entre os escombros, como fez Adania Shibli notavelmente por intermédio da ficção.