Ultimamente tenho mergulhado cada vez mais nas obras de David Lynch. Já conhecia alguns trabalhos, mas agora estou indo fundo. Os filmes dele são puro suco de simbolismo, impressionismo e uma desconexão proposital — e, honestamente, é esse tipo de coisa que mais me atrai. Gosto de ver os clássicos, gosto de acompanhar os filmes pop do momento, mas o que realmente me impacta, no silêncio da madrugada, são os filmes que parecem não fazer sentido. Aqueles que te deixam com a sensação de que nada está conectado… e ainda assim, tudo pulsa ali dentro.

Acredito que um filme assim não termina quando os créditos sobem. Ele continua vivendo na nossa cabeça. E eu gosto disso. Sempre gostei disso. Da abstração. Da subjetividade. Dos fluxos de pensamento que não seguem uma linha reta. Existe uma dinâmica, inclusive, em que você precisa falar as cinquenta primeiras palavras que vêm à sua mente. E quando faz isso, o que emerge é o que há de mais cru e verdadeiro dentro de você. Sem conexão nenhuma. É o jeito real como a mente humana funciona.

E isso, inevitavelmente, influencia nas minhas relações. Meus amigos, em sua maioria, são pessoas complexas, controversas. E eu também sou assim. Carrego contradições que, às vezes, até me assustam. Não no sentido de medo, mas de insegurança. Nem sempre me sinto à vontade para mostrar essas camadas para todo mundo — por isso, escolho a dedo quem pode acessar esse lado mais cru de mim.

Mas há algo de libertador em ser assim. Porque o mundo não é uma coisa só. As histórias que ouvimos, os acontecimentos que vivemos — tudo tem lados, versões, nuances. E talvez por isso eu ame tanto esse tipo de narrativa que não se fecha, que não explica, que apenas é.

Lembro de quando terminei de assistir Neon Genesis Evangelion. Se alguém me perguntasse: "O que você entendeu?", eu, com toda a sinceridade, responderia: "Nada." Mas eu senti. E isso, pra mim, vale mais. Porque explicar é um ato racional, e tem coisa que a mente não alcança no instante em que acontece. Tem pensamento que só se revela depois, ou que nunca se revela — apenas reverbera.

É assim que eu vivo e é assim que eu me conecto com o mundo. Eu gosto de sentir. Sentir a arte, sentir o quadro, sentir o silêncio de um momento que não sei nomear. E talvez por isso eu goste tanto de conhecer pessoas controversas, pessoas que se revelam em camadas. Pessoas que são universos inteiros dentro de si.

Uma das perguntas mais interessantes pra se conhecer alguém é: o que tem ao lado da sua cama? O que mora ali, na sua cabeceira?

No meu caso, você encontraria um tablet, o livro do Steve Jobs, o livro de um guru indiano, incensos, um terço, um cristal, vários papéis de numerologia e meu diário pessoal. Às vezes, tem até a minha Bíblia — marcada, rabiscada, vivida.

Olhar pra isso tudo e tentar me definir seria impossível. E é exatamente isso que me fascina. Porque é no caos das misturas que a gente começa a entender as camadas. Não de forma direta, mas por sensibilidade.

Talvez seja por isso que eu adoraria conhecer a cabeceira de alguém controverso. Porque ali, entre páginas dobradas e cheiros de incenso, mora a verdade fragmentada de quem a pessoa é.