Better Call Saul
faz um bom tempo que terminei Better Call Saul, consegui digerir toda a série e já de cara tenho que dizer, é uma das melhores que existem, assim como Breaking Bad.
eu amei essa história, os personagens e todo esse "apelo ao prequel", por aprofundar personagens que nós já conhecemos na série anterior, cada um com mais camadas e até introduzindo novos que são espetaculares.
vou ter que repassar temporada a temporada para relembrar os acontecimentos e o que me marcou em cada uma delas.
o início, primeira temporada, já começa muito bem, e talvez o que mais me pegou foi o quão fácil é simpatizar com o Jimmy McGill. é estranho porque em Breaking Bad ele já era carismático, mas aqui tem algo diferente, ele ainda não virou completamente o Saul Goodman, então existe uma certa "pureza" nele, uma tentativa real de fazer o certo, de conquistar o próprio espaço, e isso é transmitido muito bem com o lugar onde ele vive, o carro e o preconceito que sofre. ("você parece o tipo de advogado que os criminosos contratam"). além disso, o passado do Slippin' Jimmy também é dahora e será muito importante para o restante da série.
o ponto alto da temporada pra mim, é totalmente a relação com o Chuck McGill. eu gosto muito de como a série constrói ele, esse cara meio quebrado, com a parada da eletricidade, mas ao mesmo tempo um gênio absurdo da advocacia. só que o mais importante, ele é tudo que o Jimmy quer ser, o Jimmy precisa da aprovação dele, precisa desse reconhecimento, ele faria qualquer coisa pelo irmão, que ele ama e que idealiza/tem orgulho.
o resto da temporada funciona muito bem também, mas sinto que fica um pouco como "base" pra coisas maiores. as conexões com Breaking Bad, tipo Mike e o Tuco Salamanca, são legais, rendem bons momentos (principalmente o Jimmy com o Tuco, que é meio tenso e engraçado ao mesmo tempo), mas ainda parecem mais uma preparação de terreno.
dito isso, o Mike tem o melhor episódio da temporada, PUTA MERDA!!! toda a história dele com o filho, que é morto pela corrupção da polícia, apesar de ser honesto, a vingança do velho e a culpa que ele carrega até hoje, é pesado demais, consegue melhorar um personagem que eu já gostava muito.
a comédia aqui é muito forte. o Jimmy é naturalmente engraçado, e ver ele se virando nas situações, negociando, improvisando, é bom demais.
mas o fim… é FODA, porque quando a série revela que não era o Howard Hamlin, personagem novo MUITO bom, segurando o Jimmy, mas sim o próprio Chuck, é impressionante e inesperado, até porque o Howard é mostrado como um típico chefe cuzao, mas que na verdade gostava do James e era manipulado pelo Chuck. é uma facada no peito, o Jimmy faz tudo por ele, cuida, admira, idolatra… e no fim nunca foi recíproco, é muito cruel. me deixou animado para acompanhar essa guerra irmão x irmão.
a segunda temporada, eu senti uma leve queda no ritmo, não tem um episódio ABSURDO que se destaca igual na primeira, nenhum me marcou pra caralho, mas ainda assim o desenvolvimento é muito bom.
eu gosto bastante de como o Jimmy entra no caso da Sandpiper e, por mérito próprio, consegue algo gigante pra carreira dele. isso leva ele pra Clifford Main e aquela firma toda certinha, que é basicamente o "sonho": dinheiro, carro foda, apartamento, estabilidade… e mesmo assim ele claramente não tá feliz.
também curto bastante como a temporada aprofunda o passado dele, principalmente com o pai. toda aquela história da lojinha, do dinheiro sumindo, da culpa que ele carrega e da visão completamente diferente que ele e o Chuck têm do pai. o Jimmy vê ele como alguém bom demais pra esse mundo, enquanto o Chuck guarda um rancor do James por tudo isso, e tem uma certa "inveja" do irmão, por ser tão querido (até nas últimas palavras da mãe, ela clamava pelo Jimmy). e aquele momento do "lobo ou cordeiro" é muito marcante, porque meio que define tudo que o Jimmy vai se tornar.
mas o coração da temporada pra mim, é a relação entre o Jimmy e a Kim Wexler. é fácil um dos melhores relacionamentos. a dinâmica dos dois é boa DEMAIS… ela toda correta, disciplinada, absurda no que faz, e ele mais caótico, sempre flertando com o caminho mais fácil. e mesmo assim eles funcionam. não sinto tanta química, mas a parceria é incrível. inclusive, é bom demais ver os dois dando golpes juntos só pela diversão, aquelas cenas tipo a do bar, da tequila, são pequenas mas dizem muito sobre quem eles são juntos. o Saul Goodman tá nascendo ali, aos poucos.
contudo, o ápice da temporada é toda a parte do banco Mesa Verde e o confronto dos irmãos, com o Saul falsificando os documentos pra ajudar a Kim, é um ponto sem volta, e é foda ver o Chuck em se ferrando e em negação, ele também é piroca das ideias, arrogante, "eu jamais cometeria esse erro", desconfia do Jimmy, vai atrás de provas, bate a cabeça e desmaia, e mesmo depois disso tudo, o Jimmy ainda se importa, vai lá ajudar do mesmo jeito. e aí o tem o contra-ataque foda do Chuck, manipulando o irmão e gravando a confissão. esse final é muito bom, fecha a temporada com um peso grande e prepara bem o conflito que vem depois.
o resto, tipo o Mike com os Salamancas, é legal, divertido, mas sinto que fica meio em segundo plano. funciona mais como complemento prequel do que como algo realmente marcante.
na terceira temporada, eu acredito que foi uma montanha russa, com muitos altos e baixos. não tenho certeza se é o ritmo, mas tudo é um tanto morno as vezes.
aqui, o melhor de tudo é ver essa queda do Chuck, a máscara dele caindo, esse cara que é perfeito, controlado e impecável, se mostra arrogante, prepotente e insano.
toda essa trama de advogados me pega muito, é uma vertente muito diferente de Breaking Bad, mas que me cativa demais, então toda essa intriga dos irmãos é foda, um armando para o outro, com o episódio deles no tribunal sendo a chave de ouro para tudo.
tiveram momentos marcantes, como Chuck com a bateria no bolso sem saber, Jimmy invadindo a casa do irmão e indo preso, Kim batendo o carro (coitada dessa mulher) e Jimmy revelando que manipulou os idosos.
como acabei de citar, além da briga dos irmãos, eu curti muito o caso Sandpiper, ele mostra a dualidade interior do Jimmy, onde o Saul acaba agindo para manipular os velhinhos, isolando a representante, pintando-a como vilã, como se ela não quisesse assinar os papéis por ganância, mas depois o James Mcgill se arrependendo do que fez e se sacrificando para consertar as coisas.
o Nacho também tem um desenvolvimento muito brabo. essa saga do Cartel, Salamancas e Fring, é meia bomba, mas rende muito nessa subtrama do Nacho, me compadeci do personagem, porque mostra que ele não consegue ver um futuro quando seu pai começa a ser envolvido pelo Héctor, e toma a decisão de sabotar os remédios do chefe, isso é FODA, rendendo uma puta cena TENSA pra caramba, quando ele precisa trocar as pílulas na frente do véio.
só que assim… mesmo com todos esses pontos positivos, não acho que é uma temporada INCRÍVEL como um todo, deve ter algumas barrigas que não me recordo tão bem, porém finaliza de forma ótima, com a depressão do Chuck, por ser "exonerado" da HHM, e a morte do personagem.
agora partindo para quarta temporada, eu fico meio dividido. tudo aqui é muito bom, muito bem feito, mas ainda não me pega no mesmo nível de Breaking Bad, e acho que isso pesa um pouco também por causa da expectativa, essa ideia de que seria melhor, que ouvi de várias pessoas, acaba jogando contra. porém, não é que seja ruim, LONGE disso, é muito foda, mas é diferente.
essa temporada eu sinto que funciona muito mais como prequel mesmo, ela expande bastante o lado do cartel, com Gus, Nacho e toda a construção do laboratório com o Mike. essa parte é muito boa, principalmente o arco do Werner Ziegler, o engenheiro alemão, que tem um final pesado pra caralho, talvez o momento que mais marca a temporada nesse núcleo, com o Mike tendo que apagar o cara.
e aí tem a introdução do Lalo Salamanca, que é simplesmente absurdo. carismático, imprevisível, inteligente… ele chega roubando a cena fácil, é o Coringa de Breaking Bad-verso.
contudo, para mim, o coração da temporada continua sendo a Kim. aqui ela se consolida facilmente como um dos melhores personagens da série. gosto muito de como ela não é movida só por dinheiro, mesmo com Mesa Verde, ela quer fazer algo que faça sentido pra ela, ajudar pessoas, exercer a profissão de um jeito mais "justo". só que ao mesmo tempo, ela também se diverte com o lado mais torto do Jimmy, e isso é muito interessante, porque não é uma relação simples, ela tem muitas camadas.
esse relacionamento dos dois é ouro, e apesar de não ver uma PUTA química no casal, eu gosto muito dos dois juntos, torço por eles. e tem vários momentos bons aqui, em que estão desconectados, felizes ou brigando, por exemplo quando o Jimmy desconta suas frustrações nela, a pessoa que SEMPRE faz de tudo por ele, é massa.
por fim, o nascimento de Saul Goodman de vez. o final da temporada é justamente essa virada de chave, onde ele quer provar que tem valor, que vai superar todos que o menosprezaram e que consegue dar um jeitinho em tudo, só que pelos meios errados e o último ep marca muito isso, até a Kim acredita nele, que ele falou de coração sobre ser um advogado e sobre o Chuck, mas ele se perdeu completamente no personagem, que cena FODA, a atuação desses dois é um primor.
mesmo com tudo isso funcionando muito bem, ainda fico com essa sensação de "faltou algo" pra me pegar de verdade no nível da saga do Walter.
penúltima e quinta temporada, até aqui, a melhor disparado. tudo que a série foi construindo nas anteriores explode aqui. continua sendo slow burn no geral, mas agora tem payoff, e quando vem, vem forte.
o Jimmy McGill já tá praticamente 100% Saul Goodman, e é aqui que ele realmente começa a se envolver com o cartel achando que tá no controle, ele subestima tudo isso e vai pagar caro…
toda a parte do dinheiro, com ele tendo que buscar a grana no meio do nada junto com o Mike Ehrmantraut, é absurda. talvez um dos pontos mais tensos da série inteira. é sobrevivência pura, desconfortável, e muda muito a forma como a gente. o enxerga até onde ele está disposto a ir.
e o Lalo Salamanca aqui vira um monstro. ele já era bom, mas nessa temporada é insano, uma bomba ambulante, passa um perigo constante com ele em cena. tem a trama do Nacho e Gus que encomendam a morte do Salamanca, que é MUITO foda, e no fim falha, com o Lalo escapando e pronto para buscar vingança.
o Nacho Varga, coitado, só se fode. é bizarro como ele está cada vez mais preso num jogo, que ele não tem como ganhar. cada decisão parece só empurrar ele mais pro fundo, e é uma melancolia real acompanhar isso.
só que de novo, o que pega muito é o Jimmy com a Kim, acompanhar os dois é MUITO BOM. o casamento deles é muito simbólico, não é exatamente por amor naquele momento, mas por estratégia, por proteção. e tem todo o lance com o Mesa Verde, um contra o outro, caraca é muito legal. e o mais louco é que a Kim está cada vez mais do lado dele, sempre ajudando o cara, que maluco sortudo, não tem sentido ela estar com ele. essa personagem só cresce, inacreditável de bom, e tem até a saída definitiva do Mesa Verde e Schweikart & Cokely, onde me faz comprar ainda mais as aspirações dela, o dinheiro não é o caminho Wexler.
além disso, tem o embate do Jimmy vs Howard, que é muito maneiro e mostra o lado orgulhoso do Jimmy/Saul, pois o Howard oferece uma posição na HHM para o James, mas ele não aceita, joga várias frustrações na cara do Howard e mostra um ressentimento do personagem.
no geral, é uma temporada muito mais intensa, muito mais emocionante e que finalmente entrega aquele nível de tensão que eu sentia falta comparando com Breaking Bad, acredito que chega no mesmo nível.
FINAL, a sexta temporada, é o ápice da série, é tudo que ela construiu desde o começo finalmente chegando no limite, e eu curti muito o final. todo o potencial que essa série tinha oferecer, foi alcançado com folga.
toda a guerra no cartel, finaliza com a vitória do Gus e a morte do Nacho, puta que pariu, é foda demais toda essa trama. fora que isso também tem um impacto federal na vida da Kim e do Jimmy, porque o Lalo morre, mas antes MATA O HOWARD.
outra coisa sútil, mas que me mostra o carinho com os detalhes e com a construção dos personagens, é o fato do Lalo dizer que dorme apenas 2h por dia, cara, parece simples, mas é óbvio que um cara que nem dorme, tem aquela personalidade completamente quebrada.
seguindo, essa temporada tem uma pedrada após a outra, cada episódio é uma bomba, e acredito que dê para dividir em duas partes, com um marco que é o episódio em que a Kim LARGA A ADVOCACIA E O SAUL, levando o Jimmy consigo, caralho… é ABSURDO, uma baita rasteira e que faz todo sentido, apesar de muito triste para personagem.
após isso, existe apenas Saul Goodman, e além de conectar de forma magistral com a série anterior, mostrando até interações entre os personagens (Kim e Jessie por exemplo), mostra como o Saul em uma nova vida, começa a se enfiar novamente no mesmo buraco, passando a perna nos outros, assim como fez em Albuquerque, mas que dessa vez é pego.
contudo, o final é o que mais me pegou, é o ponto mais alto da série inteira e o destino do Saul é poético. não é um final explosivo, não tenta ser grandioso, mas é coerente e espetacular. tudo indicava que ele ia continuar sendo o Saul Goodman, tentando sair por cima, conseguindo uma pena mínima, mas ele faz o contrário… ele escolhe ser o JAMES MCGILL, assume tudo, não somente para a justiça, mas pra Kim Wexler e para si. é ali que ele prova quem ele realmente é, e isso é muito forte.
é um final mais poético do que impactante, mas é exatamente o tipo de final que essa série precisava e é o que o Jimmy merecia.
após toda essa jornada, só tenho que ressaltar toda a produção, roteiro e atores dessa série, não tem como… foda demais.
no fim, ainda não consigo comprar essa ideia de que é melhor que Breaking Bad, na minha opinião não é. mas também acho que são propostas diferentes, tem coisas aqui que eu gosto até mais, de modo geral, BB é melhor que BCS como um todo, mas essa reta final de BCS é superior. enfim, tô feliz pra caramba de ter acompanhado, é uma PUTA série, entra nos meus favoritos com certeza.
nota 8.5/10