Tratamento de silêncio é uma coisa muito pouco madura. Antes de a gente falar da vida minha cabeça já gritava. Aliás, ela grita constantemente o tempo todo, assim como meu peito. E quase sempre lidei com o silêncio de todas as formas inimagináveis.
Mas a real é que eu falo alto, de forma que ecoa, que incomoda os vizinhos, as pessoas, a sociedade. Sempre fui carcamana, nunca fui contida. Sempre fui prolixa. Ansiosa. Disfarço timidez e solidão com extroversão. Exagerada, mas nunca borderline. Sempre na dualidade do emocional e racional. Talvez tenha traços de bipolaridade, mas quem não tem, não é mesmo? Já tentei tratar e só piorei, o que me faz crer que os médicos estavam muito errados e queriam me colocar em uma caixinha na qual eu não pertenço, afinal no final das contas grande parte da medicina é muito mais sobre caixinhas de remédio, consumo, vício e dependência química velada por ser socialmente aceita.
Se pararmos pra pensar, todos nós fomos criados em um mundo bipolar. Masculino e feminino, certo e errado, céu e inferno. Por isso gosto da prolixidade: quando levantamos questionamentos nos abrimos para outras opções.
"Não existe certo ou errado, existe o bom a se fazer e é o que você quiser" também disse o poeta, que complementou mais à frente parafraseando outro poeta:
"Eu sou como o velho barco que guarda no seu bojo O eterno ruído do mar batendo No entanto, como está longe o mar e como é dura a terra sob mim Felizes são os pássaros que chegam mais cedo que eu à suprema fraqueza E voando caem, felizes e abençoados, nos parques onde a primavera é eterna."
Mas a primavera se foi. Se foi de 2x1. E com ela meu amor e essa dor.
É bom estar em paz, ainda que nervosa e ansiosa. Mas sei que isso é uma condição do meu cérebro que eu luto todos os dias contra, pois meu estômago nunca se deu bem com químicos e comprimidos. E minha reputação a zelar nunca se deu bem com a felicidade total e plena que a natureza me trás.
Fazer escolhas, confiar nelas e assumi-las é algo extremamente complexo. Por isso escolhi ser feliz, realizar sonhos e cumprir com minhas obrigações, ainda que com muita dificuldade de dar conta de tudo.
Berrar ajuda, falar, cantar, escrever, produzir, pintar, costurar, imaginar, criar. Se eu sou louca, que seja uma louca feliz, tal qual uma palhaça e seu nariz.
Eu só queria tomar um vento na cara e me deu saudade de você. Ainda que sem explicação ela vem sempre de forma arrasadora. O personagem que criei neste roteiro chamado vida é muito ideal, ainda que na estante um o outro por mais de alguns instantes. Foram 17 anos de elaboração. E ainda consigo acreditar que ele consegue ser mais complexo que isso em sua solitude. Ser curiosa às vezes é um problemão.
Amo a solitude, odeio solidão que o silêncio causa. Seguido dela vem o pânico e as mãos que tremem constantemente. A sociedade jamais entenderia como é viver em paz pra mim. Sem dores físicas e emocionais. A vida me obriga a viver sem um sorriso no rosto executando funções que odeio todo dia, mas que assumi a responsabilidade e aprendi a amar o que virá disso tudo, pois entendo que é um período e vai passar. É difícil ser mãe e dona de você ao mesmo tempo. Mas isso ajuda quando as pessoas entendem a responsabilidade de uma vida. Isso é maturidade. Ainda que em silêncio e com necessidade de evolução. A vida me moldou para ser da forma que sou e eu infelizmente não consegui escolher isso. Nem todo mundo tem escolha. Mas quando acontece, temos a escolha de assumir o destino, ainda que não seja ideal.
É incrível como a maturidade e a maternidade me transformaram em uma pessoa extremamente responsável, porém exausta, esgotada e de emocional mediano. Digo mediano pois adoro ser mãe. Odeio maternar. Talvez tenha nascido pra ser pai mas nem essa opção tenho pois executo tudo de forma exemplar, ridiculamente melhor que ele.
Infelizmente escolha é algo subjetivo e negado na vida da maioria das mulheres. E ainda assim eu tenho coragem o suficiente para fazê-las.
Isso parece um caos pra você? Que pena, porque é e não é. Foram muitos anos de terapia investidos nisso. Ser exausta de felicidade e ter que voltar para uma rotina morna infeliz é torturante. Mas necessário.
Segundas feiras são dificílimas. Ainda mais quando fomos livres e felizes por 72hrs.
Não vejo a hora da minha carne ser de carnaval novamente.
Talvez eu tenha descoberto um ótimo equilíbrio, ainda que não igualitário socialmente.
Será que um dia eu chego lá?
Descobriremos? Descobrirei? Descobrirás? Descoberto será.