Eu estava no banheiro lavando as mãos quando meu filho entrou correndo. Com urgência anunciou que estava amando! Eu paralisei por alguns segundos. Meu sangue pareceu desaparecer das veias. Ao mesmo tempo meu coração disparou. Um calor subiu pelo meu rosto, e estávamos no pior inverno da história de Boston! Ele repetiu em inglês para ter a certeza de que eu havia entendido a declaração: "Mama, I am in love!". Minha mente disparou em frenético monólogo na minha mudez: "Quem será o menino?" "Ou será menina? Se for, tudo bem, maravilhoso, sem problemas." "Como eu pergunto isso a ele ?" "O quê dizer para não estragar esse momento?" "Eu sei que vou estragar. É melhor não dizer nada. Espera!" "Mas ele veio me contar… ele quer que eu diga alguma coisa." "Fala!" "Oh céus… sorria sua idiota. Isso não é o fim do mundo" "Será que ele está sofrendo?" "Não vou aguentar ouvir se ele me disser que está sofrendo de amores…"

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Finalmente meu filho me tira da minha agonia e declara: "I love this book!" e me apresenta o dito cujo. Eu estava implicando com ele semanas por causa desse livro. Eu não achava que era um livro interessante; pela capa e pelo título parecia um livro repleto de clichês da cultura americana escolar. Mas quando ele esticou o braço para apresentar o seu amor e colocou o livro a um palmo de distância da minha cara e me olhou com olhos brilhantes de pura felicidade, meu rosto relaxou e lágrimas escorreram pelo meu rosto. Abracei ele e o livro juntos e disse coisas do tipo "que lindo!", "como estou feliz por você!" Ele me disse que sabia que eu não estava gostando muito do livro dele, mas que eu deveria ler para sentir como o livro era maravilhoso. Me disse como era divertido ler um livro narrado por um menino da idade dele e vivendo coisas muito parecidas com as coisas que ele estava vivendo. Senti culpa por ter expressado sentimentos de desaprovação ao livro. Me desculpei efusivamente e disse que não iria ler o livro porque não era o tipo estória que eu gostava, mas que estava feliz pelo amor dele. Abençoei o amor dos dois.

Meu filho foi se aconchegar no sofá em baixo de um delicioso cobertor com seu amor, e eu me retirei para lidar como as minhas confusas, reveladoras e nostálgicas emoções.

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Lembrei-me de quando me descobri apaixonada por um livro. Eu devia ter uns treze anos, quatro anos mais velha que meu filho. Um livro grosso de capa dura caiu nas minhas mãos. Não me lembro agora as circunstâncias do encontro. Talvez fosse de algum amigo de minha irmã mais velha que deixou lá por casa. Livros como aquele não havia na minha casa. Em casa tínhamos o jornal local diariamente entregue na porta, uma enciclopédia Barsa com seus volumes em capa de couro vermelha, várias revistas de fotonovelas que minhas primas e irmãs liam com voracidade e fervor, e várias livros de romance-folhetim da coleção Sabrina, Julia e Samantha. Ah, e também gibis de diferentes tipos. A literatura da minha casa era comprada em banca de revistas e nunca em uma livraria. O universo literário da minha família tinha dois objetivos: ler para informação e diversão rápida; concisa. Ninguém passava muito tempo se aconchegando com um livro.

Quando o objeto de meu amor caiu nas minhas mãos, e eu me descobri completamente apaixonada por aquele livro, foi uma completa surpresa para mim! Por semanas eu era consumida pelo desejo de voltar pra casa correndo da escola e encontrar meu livro — assim como meu filho fez hoje. Quando eu estava com meu livro as horas passavam e eu não percebia. Minha atenção e desejo tinham um foco, um destino. Com este amor eu descobri que poderia sair de casa, do bairro e de qualquer chatice sem que ninguém percebesse e começasse a fazer perguntas imbecis. O prazer deste amor é para além das contingências.

Acordar de manhã cedo e ir ao encontro do seu amado. Dormir com o seu amor. Detestar as horas de separação. Dedicar horas inertes e relaxadas com o seu amado. Rir e chorar com o seu amor. Descobrir-se amando um livro é sonhar com o conhecimento de si. Meu filho descobriu este amor aos nove anos!

Ele se descobriu amando estilos literários que mais o agrada. Saber o quê agrada a você mesmo é difícil! Eu passei muito tempo sem saber. O quê me agradava era o quê eu fazia para agradar os outros. Eu tentei repetir a mesma castração ao meu filho censurando o gosto dele! Que medo de mim mesma me deu! Ainda bem que meu filho não me deu a mínima atenção e escolheu o que o agrada. Ele confia no conhecimento que tem de si e gruda no agradável amor de sua alma.

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Amor à livro é intenso, é desnudante e é uma das primeiras vivências de flexibilidade amorosa. Para amar alguém, você precisa exercitar a sua capacidade de flexão, contorção e molejo. Com o livro não é diferente. Você ama um hoje, amanhã outro, e no mês seguinte você ama dois ou três ao mesmo tempo. Depois você se pergunta como você pôde ter amado aquele livro canalha que você leu no passado! Em seguida você ama e odeia um livro que te perturba e te diverte profundamente. Aí você encontra um livro que é absolutamente chato, mas que você não consegue abandonar e não sabe porque. E tem livros que logo de cara você não gosta e não está a fim de passar nem um segundo perto. E se você for mais antenada do que eu, você não vai julgar livros pela capa!

Logo o livro se torna familiar e ao mesmo tempo algo de reverência.

Neste momento lembrei-me com tristeza e ainda raiva de um episódio que aconteceu em uma viagem de ônibus que fiz de Florianópolis para Criciúma, uma cidade no interior de Santa Catarina. Estava viajando a trabalho e ao entrar no ônibus e localizar o meu acento, tirei da minha bolsa um saco com biscoitos e o livro que estava lendo e me acomodei para desfrutar do prazer precioso da sua companhia. Nas poltronas do outro lado do corredor estava uma família de pai, mãe e duas filhas, na idade de mais ou menos sete e cinco anos. Durante os primeiros trinta minutos da viagem, as crianças estavam distraídas no colo de seus pais jogando jogos nos celulares, mas depois começaram a ficar entediadas com o sacolejar do ônibus. A criança mais velha me notou e começou a olhar pra mim fixamente. Acenei, sorri e voltei ao meu livro. Sem tirar o olho de mim e com um ar de grande curiosidade ela perguntou aos pais o que era aquilo que eu tinha nas mãos. Os pais tentaram distrai-la oferecendo lanche. Ela recusou. Eu lhe ofereci meus biscoitos. Ela também recusou. Não era dos biscoitos que ela falava. Voltou a perguntar e apontar para o objeto que eu segurava e se esticou tanto para apontar que tocou no livro e arregalou os olhos com surpresa. Eu sorri e mostrei meu livro — não havia nenhuma ilustração na capa e nada de interessante. Ela sorriu de volta e tentou agarra-lo. Os pais falaram para ela não me perturbar e voltar a jogar no celular. Ela passou o resto da viagem arriscando olhares para o meu livro. Como pode esse objeto imensamente mais antigo que um celular ser desconhecido e exótico para alguém? Me senti triste e culpada por sentir um prazer aparentemente ainda acessível a poucos. Segui o resto da viagem puta, porque o abismo da desigualdade está a um braço de distância e não há pontes!