Odeio ser mórbida (mentira, não odeio não), mas alguém que aos poucos vai percebendo que existe uma conexão entre morte x vida (e sendo completamente cética a respeito ao mesmo tempo), acaba ficando obcecada com o tema. Eu aceitei bem a morte de papai. Bem demais. Mas o vejo em todo canto, o que antes era difícil, se não impossível. Outro dia deitou no meu sofá com dor de cabeça, ontem me agradeceu novamente por não estar vivo, e assim, desprovido de ansiedade. "imagina eu ter que lidar com toda essa mudança e burocracia, hein Aline? Hein?" Concordei, como concordava antes, sem dar muita importância. "escuta o que tô te falando", não escutei. A vida faz mais barulho na minha cabeça. Aprendo novos traumas, lido com pessoas que não quero mais lidar (dessa forma mesmo, infantil, unhé "não quero, não quero, não quero — manhê, olha ele!"). Sentou outro dia comigo, com um casaco que me desfiz faz um tempo, os dentes reluziam a ouro. Sentou, com as costas curvas. Falei que estava com saudades dele, me ignorou e disse que ia procurar a mãe dele. "não acho, acredita? não é muito fácil achar as pessoas, talvez N. me ajude quando vier". Disse que eu mesmo falaria com meu tio, vivo. Não falei, o que falaria "ele precisa que você ache a mãe de vocês?", um hospício estaria me aguardando segundos depois dessa conversa. O mundo corre e não dei — nem darei — prioridade as conversas do morto. Em troca, também não peço mais nada. Pedi que não levasse a minha mãe — e ele respondeu um "Táááá boooom" debochado. Depois dessa, achei melhor não provocar — ele porém vive aparecendo por aqui e provocando: Um beliscão aqui e outro ali. Não sinto ainda compreensão dele por meus problemas — e como isso é obvio e constante, fico pensando se são realmente importantes ou se eu os valorizo demais. Os escondo atrávés de música alta e exercícios exaustivos, o que não resulta em nada saudável devido as comilanças que faço "Tá redondinha hein?". Tô pai, mas me deixa — preciso cuidar da casa, trabalhar — e assinar aquele contrato que vocês fizeram para me facilitar a vida — só que só me dificultaram. Ele fecha a cara, esta chateado por entender que não gosto dos filhos dele, que não gosto do que esta acontecendo. Não me pede nada nesse sentido porém. Mas não curte a ideia. Nem eu curto, mas não caí longe do pé.