Quando observo o ritmo em que a inteligência artificial está evoluindo, tenho a impressão de que o mercado está olhando para o gargalo errado. A discussão atual gira quase exclusivamente em torno do tamanho e da inteligência dos modelos. No entanto, os movimentos recentes indicam que a verdadeira transformação vai acontecer nas extremidades: na forma como construímos a arquitetura dos nossos sistemas e em como desenhamos as interfaces para o usuário comum.
O novo consumidor do seu back-end não é humano
Até hoje, a lógica de desenvolvimento de software foi baseada em antecipar o comportamento humano. Construímos sistemas para telas pré-definidas, tentando prever cada clique e jornada do usuário. Mas, com a ascensão do que chamamos de "consumo agêntico", esse modelo parece estar com os dias contados.
Acredito que, em um futuro próximo, o usuário final não vai mais navegar pela sua interface da forma tradicional. Um agente de IA fará esse trabalho pesado, consumindo as APIs da sua empresa para montar, em tempo real, a experiência exata que a pessoa precisa naquele momento.
Isso significa que o consumidor principal do seu back-end passará a ser uma máquina. Diante desse cenário, arrisco uma previsão:
A próxima grande onda tecnológica deve ser o surgimento de plataformas de APIs totalmente dedicadas a converter dados e serviços corporativos para o consumo de IAs. Para sobreviver a essa mudança, a arquitetura dos sites precisará se tornar muito mais modular e granular.
A engenharia de prompts tem prazo de validade?
Se os bastidores da tecnologia vão mudar para atender as máquinas, a linha de frente precisará mudar para não afastar as pessoas.
Outro ponto que tenho notado: muitos profissionais de fora da bolha de tecnologia ficam frustrados ao tentar integrar a IA em suas rotinas.
O motivo é que ter que raciocinar e estruturar a "pergunta perfeita" exige muita energia para usuários comuns (a grande massa, fora da nossa bolha). Para o cérebro humano, pautado pela Lei do Menor Esforço, qualquer gasto de energia desnecessário é evitado a todo custo.
É por isso que questiono se a famosa "engenharia de prompts" continuará sendo uma habilidade essencial por muito tempo. Minha leitura é que o próximo grande salto das gigantes do setor como Google, OpenAI e Claude não será apenas lançar um modelo mais inteligente, mas sim revolucionar a interface de uso.
A tela em branco, esperando por um comando complexo e bem redigido, tende a desaparecer. Imagino um cenário onde:
Você apenas falará o seu objetivo em linguagem natural e o sistema, de forma dinâmica, vai gerar um fluxo visual na sua tela. Botões e caminhos clicáveis criados na hora, guiando você até a conclusão da ação sem que seja necessário digitar qual o próximo passo.
Quando as empresas dominarem a criação dessas interfaces moldáveis e fluídas, a fricção atual da digitação vai cair por terra. Consequentemente, muitos softwares tradicionais de nicho podem se tornar obsoletos de uma hora para outra.
No fim das contas, a corrida pelo domínio da IA parece se resumir a um fator determinante: quem chegar primeiro na solução que entrega a menor carga cognitiva, vai ganhar o mercado da grande massa.