Passei uns 10 dias "perdendo tempo" assistindo (ouvindo?) webnovelas no youtube. Claro que me senti mal pela perda de tempo, além do medo de ficar viciada, mesmo com os argumentos do chat gpt de que esses programinhas são "canja de galinha" para uma mente cansada. Pois bem, apesar dos sentimentos ambíguos, sentia que algo ali poderia ser um material interessante como indício do presente.
Trata-se de materiais simplórios, melodramáticos, praticamente constituídos apenas por audio e imagens criados por IA, geralmente com fotografias. Em alguns deles, uma única fotografia fixa, exibida por toda a duração da narração. Algumas vezes há alteração dessas fotografias, mas, no geral, não passam de 3, no máximo 5, em episódios que podem durar mais de uma hora. Confesso que, nesses, acelerava o áudio, eu ainda pulava vários trechos.
Ou seja: produção barata, texto clichê, maniqueísmo, estrutura entre novela mexicana e fábula. Caí no algorítimo que me inundou de indicações de mais desses produtos que são muitos, muitos mesmo. E isso me impressionou mais ainda.

No entanto, além dessa primeira impressão, algo começou a ficar ainda mais evidente e onipresente nessas narrativas: inversão de classes e lugar social, à maneira dos "humilhados serão exaltados".
E me lembrei, então, de um capítulo do livro O Grande Massacre de Gatos, de Robert Darnton, no qual o autor analisa narrativas camponesas da idade média que funcionavam como pequenas válvulas imaginárias em uma sociedade rigidamente estratificada: às vezes ridicularizando os ricos, às vezes realizando inversões das condições de classe.
Pois bem, é inegável que, hoje, vivemos um período de hiperconcentração de renda e de enrijecimento da mobilidade social, apesar de toda a propaganda em contrário e da insistência dessas propagandas, nas benesses do empreendedorismo. E, para seguir com meu raciocínio, preciso fazer uma barriga no texto, como é a forma de funcionamento do meu pensamento, em geral.
Quero me remeter, a princípio, ao filme Divino amor, de Gabriel Mascaro. Ele começa numa espécie de "rave gospel" e a narração diz: o ano é 2027 e a principal festa no Brasil não é mais o carnaval, mas a festa do Divino Amor. O contexto é de um Estado teocrático hiper burocratizado. Trata-se de uma "cooptação gospel" de um artefato cultural. A festa sem a inversão de valores do carnaval. Assim como vemos acontecer na capoeira gospel (que se torna atividade física com fins evangelizadores), nas festas juninas convertidas em "country", e tantos outros exemplos que nos remetem à apropriação das tradições pela lógica neopentecostal e, no caso do carnaval, especificamente, a substituição da lógica da inversão dionisíaca por uma reafirmação moral. O que seria espaço de subversão e transgressão da ordem passa a confirmá-la.
Passemos, então, ao carnaval tal como acontece hoje. Sim, isso faz parte do meu pensamento e suas barrigas. Pretendo, sinceramente, conseguir amarrar tudo ao final.
O carnaval... Vim morar em SP há quase 3 anos. Não é a festa do Divino Amor, mas algo me impressiona: o carnaval daqui também me parece cooptado, no seu sentido de inversão de papéis e de tempo fora do tempo, não pela lógica evangélica, mas capitalística, mediada por sua interface empresarial. O carnaval então vira evento de rua, divertido, claro. Mas patrocinado, com horário de início e de fim, com as equipes de garis a postos, limpando tudo, encerrando cada bloco.
O acaso não tem muita possibilidade de emergir. O imponderável, aquilo que se dá exatamente nos interstícios das relações embaladas pela música, uso de substâncias e pela atmosfera de subversão, dificilmente encontra brechas. O tempo é rigidamente controlado sob justificativas de eficiência e higiene. As críticas e subversões se convertem em imagem, fantasia comprada e capitalização de imagem via Instagram.
Enfim,
Talvez estejamos, por duas vias não opostas, (a religiosa e a capitalística), estrangulando as possibilidades de brincar com as injustiças, de viver, mesmo que por algumas horas, a distorção dos papéis sociais e dos sentidos.
Retornando, por fim, às novelinhas do youtube, não seria exagero ver nelas algo que ecoe justamente aquelas narrativas da Idade Média analisadas por Darnton, criadas e difundidas num período de rigidez social extrema.

Face às restrições contemporâneas das vivências e experiências carnavalescas, e da própria experiência de inversão, talvez sobreviva a possibilidade de uma inversão não mais vivida na festa, mas consumida na fantasia moralizante dessas webnovelas. Não no corpo ou na rua, mas através de um enredo que requer pouco repertório narrativo e existencial. Uma inversão imaginária mínima, da vitória moral do bom pobre sobre o mau rico, da verdade sobre a mentira, da pureza sobre as manipulações ardilosas. Tudo isso, repetido à exaustão pelos algorítimos, com chamarizes apelativos em busca de engajamento.
Não acredito que essas considerações expliquem a existência dessas novelinhas, nem pretendo estabelecer alguma relação direta de causa e efeito. Mas, os fenômenos coexistem. Se a festa já não nos permite experimentar outras formas de viver, nem por excesso, nem por descontrole, a imaginação se acomode nesse formato microscópico de revanche. Se é pobre como forma estética, talvez seja rico como sintoma. E, por fim, o que vaza por essas narrativas pode não ser apenas kitsch ou vício de plataforma, mas um desejo de mundo invertido que não encontra espaço fora da tela.
